Empresa de Indaiatuba (SP) leva ao mercado solução que pode oferecer ao país alternativa em luta estratégica do agronegócio
Foi preciso que a guerra na Ucrânia ameaçasse o comércio internacional de fertilizantes para o Brasil despertar para uma necessidade: é hora de contornar a dependência de importação da Rússia. Enquanto autoridades brasileiras buscam saídas — a curto, médio e longo prazo —, um laboratório no interior de São Paulo se candidata a oferecer uma colaboração inovadora por meio das nanopartículas.
Em Indaiatuba (SP), a NanoMetallis está levando ao mercado agro uma tecnologia baseada em nanopartículas de zinco sintetizadas em laboratório, que promete reduzir a necessidade de uso de fertilizantes tradicionais e de defensivos agrícolas.
Esses fertilizantes podem ser aplicados nas plantas por meio da irrigação do solo ou pulverizados em suas folhas. Estudos sugerem que a aplicação de nanopartículas diretamente nas plantas é especialmente benéfica para o meio ambiente, com absorção mais eficiente e sem contato com o terreno, com eventual escoamento para rios, lagos e mananciais.
“O pessoal joga o fertilizante na terra, e a planta tem uma dificuldade imensa de captar. A maioria do produto vai embora. O que o nosso produto faz? O zinco entra dentro da planta e a estimula a captar tudo o que ela precisa da terra”, conta o biofísico molecular Milton Bugs, um dos responsáveis pelo projeto. “E a planta se protege, não pega fungicida, bactericida. E dá para comer, não é tóxico, a gente precisa de zinco.”
Segundo os desenvolvedores, os testes já efetuados em culturas diversas apresentaram eficiência de ‘99,99%’. A tecnologia também obteve êxito em setores como saúde animal, tintas e cosméticos. Pela ideia desenvolvida, o microfio de óxido de zinco entrega para o agricultor a função de imunonutrição, estimulando as defesas naturais da planta e resultando no aumento da produtividade em diferentes condições de estresse.
A empresa diz que o preço ao cliente vai depender de seu valor agronômico, ou seja, o que irá entregar para o produtor. No entanto, a NanoMetallis projeta cobrar um patamar ‘compatível’ com o que o mercado paga hoje em modelos convencionais, pensando que a tecnologia usa 25 gramas por litro de fertilizante, contra 700 a 1.000 gramas dos padrões já utilizados. A promessa de um valor competitivo também se dá devido à produção independente de importações.
Hoje, os fertilizantes convencionais do mercado, na categoria de derivados do cloreto de potássio (KCL), são negociados pouco acima de R$ 6 mil a tonelada, segundo a Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja).
Convencendo produtores sem “robozinhos”
A tecnologia das nanopartículas aplicadas aos fertilizantes foi desenvolvida pelo casal Raquel e Milton Bugs, proprietários da NanoMetallis ao lado do investidor Sérgio Frota. Atualmente, o projeto se encontra em estágio de validação com produtores rurais de diferentes culturas.
Os idealizadores dizem que contam com parceiros relevantes do agronegócio brasileiro, mas ainda não podem divulgar seus nomes, por questões contratuais. A projeção é ver o produto no mercado no próximo ano, respeitando os tradicionais processos de validação de “mais de um ciclo” dos produtores.
“Quando se fala sobre nanotecnologia, a pessoa já tem aquela impressão de que é aquele robozinho correndo atrás da célula. Isso gerou um certo estranhamento inicial”, conta a biofísica molecular Raquel Bugs, sobre o início da conversa com produtores.
“A gente tinha de vencer a barreira do agricultor, que é uma pessoa geralmente desconfiada, com toda razão, que vai apostar tudo numa cultura. Passamos então a validar o produto com empresas, demora mais do que um ano. Geralmente, novos produtos são validados pelas empresas por dois ou três ciclos. Temos de dar esse prazo para as empresas.”